A dominância do Bitcoin

 

 

bitcoindom

Em uma tarde no final de 2013, Vitalik Buterin me enviou por Skype um paper que descrevia como uma plataforma de “smart contracts” poderia funcionar e usar bitcoins como uma moeda atrelada. Era o paper do Ethereum, que li com interesse e que na época era chamado de “vapourware“, que quer dizer um software que existe somente no plano da imaginação. De fato as pessoas não estavam erradas, era mesmo algo irreal se pensássemos no esforço necessário para desenvolver um projeto com aquela envergadura. O Bitcoin parecia algo gigantesco em comparação com a ideia poderosa de Vitalik, que apesar de muito interessante, ainda precisava ser executada. Graças ao esforço de MUITOS desenvolvedores e executivos, o projeto decolou.

Hoje o Ethereum é um gigante no meio das criptos, ocupando a vice-liderança no ranking de protocolos mais capitalizados e acho que muitos concordariam que tomou a liderança no crescimento da comunidade de desenvolvedores. Sua moeda, o ETH, valorizou mais de 1000% nos últimos meses, os volumes diários de negociação já são 1/3 dos do bitcoin e sua capitalização gira ao redor de 1/7 da capitalização do bitcoin. Alguns exchanges importantes como bitfinex e coinbase adicionaram suporte ao ETH. A capitalização do ETH hoje gira ao redor de 1 bilhão de dólares, ou 3,55 bilhões de reais, maior que todas as outras criptomoedas somadas (exceto o bitcoin), veja os gráficos abaixo:

altcoins

Capitalização de todas as criptos exceto o bitcoin

 

Capitalização do ETH

 

Nunca a dominância do bitcoin foi contestada de maneira tão consistente, e com perspectivas favoráveis ao Ethereum. O XRP chegou a ter os seu picos, o que chegou a derrubar a dominância do BTC para 80% em janeiro de 2015 como mostra o gráfico abaixo, e o Ripple está ganhando tração entre os bancos, mas é um animal muito diferente do bitcoin. Mesmo que sua moeda atinja níveis superiores de capitalização, estaria preenchendo um espaço diferente, especializando-se em ser uma “moeda coringa”, otimizando a liquidez em um mundo cheio de mercados e pagamentos entre sistemas interoperáveis.

 

XRP

Pico de capitalização do XRP

 

Já o Ethereum e o Bitcoin são mais comparáveis por terem mais semelhanças, como a resistência à censura, o uso de “seigniorage” para remuneração do serviço de validação de transações (“mineração”) e o uso da tecnologia chamada “blockchain“.

No entanto, há grandes diferenças entre os dois protocolos. Uma delas está no modelo econômico, já que o bitcoin tem um modelo deflacionário e o Ethereum um modelo indefinidamente inflacionário. Outra é que o Ethereum permite o uso de linguagens de programação nativas que são muito mais poderosas que o scripting do bitcoin, característica que alguns apontam como sendo uma grande inovação.

Não vou tentar adivinhar o futuro, mas o cenário atual sugere uma diminuição na dominância do bitcoin, que enfrenta um período de seca inovatória e uma crise de governança. Ontem mesmo um dos fundadores da Coinbase fez o seu “rant” sobre o assunto, apontando o Ethereum como um modelo de governança a ser seguido.

Também é importante notar que uma perda de dominância não quer dizer diminuição de capitalização ou perda de relevância, visto que o mercado de criptomoedas mundial só tem crescido após o estouro da bolha do bitcoin, que teve seu vale em meados de 2015. Portanto, o bitcoin pode ter uma fatia menor do bolo, mas esse bolo não para de crescer.

Outro ponto notável é que uma dominância mais distribuída pode ser um sinal de saúde e refletir uma divisão mais clara de papéis, com o lançamento de tecnologias novas que nascem para resolver problemas diferentes, criando uma indústria altamente variada e mais madura, que refletiria a visão daqueles que acreditam em um futuro com milhares de “blockchains” e “ledgers”, compartilhados e centralizados, públicos e privados, altamente inter-operáveis – a chamada “Internet dos Valores”.

Rafael Olaio

CEO da Rippex

Fonte dos gráficos: http://coinmarketcap.com/