O protocolo Interledger

ILP

 

Após o lançamento do “Interledger Protocol” (ILP), resultado de um trabalho conjunto entre a Ripple e o W3C, o mundo agora tem um exemplo prático de um protocolo que propõe padrões abertos para pagamentos entre “ledgers” (livros razão) de qualquer natureza (públicos, privados, descentralizados, etc) sem a necessidade de uma entidade central para validar as transações.

Ou seja, qualquer ledger que implementar o ILP terá interoperabilidade com outros ledgers integrados ao ILP.

Porque isso importa? Por alguns motivos:

1 – Bancos não precisam trocar seus sistemas atuais.

Com o ILP, bancos podem tornar seus sistemas legados compatíveis com pagamentos ILP implementando o “escrow” criptográfico no qual o ILP se baseia. Isso permite que sistemas legados sejam incluídos na “Internet dos Valores”.

2 – O ILP funciona com sistemas públicos e privados.

Uma das resistências de grandes bancos para adotarem os protocolos abertos é a privacidade. Usando o ILP, grandes bancos podem interconectar seus ledgers diretamente para pagamentos instantâneos.

3 – Escalabilidade infinita.

Recentemente houve muita discussão sobre a escalabilidade e a praticidade do modelo “um ledger reina sobre todos”, na qual consultorias e altos executivos de empresas de tecnologia apostam em um futuro de múltiplos “blockchains”. Marley Gray, Diretor de Estratégia para Serviços Financeiros da Microsoft, que recentemente adicionou o ripple à sua plataforma de “blockchain as a service”, disse  nessa entrevista:

“In financial services, I think we’re going to see a mixture of different blockchain technologies. There will be many, many chains—chains for swaps, chains for bonds. They’ll each have different characteristics. We’ll see chain patterns evolve. You could plug and play various consensus algorithms based on the products that exist on that chain.”

Como vamos ver nas explicações abaixo, a escalabilidade do ILP é infinita já que não é necessário uma rede específica da qual todas as transações dependem.

4 – Interoperabilidade já é uma necessidade.

Mesmo sem a existência dos novos protocolos financeiros abertos, a falta de interoperabilidade entre ledgers de todo o mundo causa enorme fricção e custo nos pagamentos, principalmente os pagamentos internacionais.

Como funciona o ILP?

O ILP funciona basicamente coordenando a criação e a liberação criptográfica de “escrows” – contas controladas pelo(s) administrador(es) do ledger na qual os fundos são temporariamente bloqueados para garantia de uma transação. Isso pode ser feito em ledgers centralizados (gerenciados por uma entidade, como um banco) ou descentralizados, nos quais o escrow é criado e mantido puramente por leis criptográficas.

Para entender, vamos ver um exemplo prático bem resumido de uma transação entre dois ledgers privados e centralizados.

Como partes da transação temos os dois ledgers, um “conector”, ou seja, um provedor de liquidez que possui conta nesses dois ledgers e publica ofertas venda de ativos entre os dois ledgers, e um “pathfinder”, literalmente um sistema que “procura caminhos” para o pagamento e os publica para os usuários do ledger.

No exemplo, vamos usar um pagamento de Alice para Bob, sendo que Alice mora nos EUA e Bob na Europa, assim Alice possui Dólares mas Bob só pode receber Euros.

Então essa seria a configuração necessária:

Interledger + Ripple

Quando Alice quer mandar EUR para Bob, o preço para a transação e o caminho encontrado são mostrados como opção de pagamento, baseados nos termos publicados pelo conector. Por exemplo, vamos supor que o conector pvenda 0,9 EUR por cada USD e Alice queira enviar 9 EUR para Bob.

Supondo que Alice está de acordo com os termos, ela pode disparar o pagamento, iniciando a fase de preparação, na qual as quantias necessárias para fazer a transação serão bloqueadas nos escrows:

Após o escrow da última perna do pagamento, a fase de preparação está completa e inicia-se a fase de execução, que pode ocorrer de dois modos: Atômico ou Universal.

Modo atômico quer dizer que a execução de todas as pernas do pagamento acontecem simultaneamente, com a liberação de todos os escrows. Tal simultaneidade é gerenciada pelos chamados “Notaries”, que ao receberem a prova criptográfica de que a última perna está pronta, usam essa prova para liberar os escrows:

ILP exec

“Notaries” podem ser uma entidade que o administrador do ledger confia, ou uma rede descentralizada de validadores atuando em conjunto, o que é um conceito poderoso. Imagine uma rede como o bitcoin ou o ripple, oferecendo a validação segura de transações como serviço.

No modo universal, a prova criptográfica (receipt) é entregue ao conector pelo administrador do ledger da última perna do pagamento, a qual é apresentada pelo conector para o administrador do ledger da perna anterior, assim sucessivamente até o primeiro ledger. Desse modo, sempre há o incentivo para passar adiante o receipt para poder reclamar o montante em escrow, pois o portador do receipt já foi debitado mas ainda não foi creditado, veja na figura:

ILP exec uni1

Veja que o conector foi debitado em EUR mas não foi creditado em USD. O crédito será completado quando o receipt for apresentado ao ledger USD Bank

Após receber o receipt, o conector apresenta ao ledger no qual tem fundos em escrow a receber, e o pagamento se completa:

 

 

ILP exec uni2

Nesses dois modelos a escalabilidade é infinita, já que cada par de ledgers pode ter os seus conectores ou rede de conectores.

Demonstração

Parece um processo complexo, mas tudo isso pode ocorrer em menos de 1 segundo, veja essa demonstração:

 

Considerações

Na época do lançamento, algumas preocupações surgiram, baseadas no fato de que o ILP permite aos bancos terem alguns benefícios dos protocolos descentralizados porém sem usá-los.

A Ripple estaria se afastando de sua visão inicial na qual o ripple e o XRP seriam parte integrante da internet dos valores?

A resposta para essa pergunta é não. O ripple e o XRP tem um papel importante na internet dos valores e vamos discutir isso no nosso próximo post.

Seguem links para os curiosos:

Site: https://interledger.org

White Paper: https://interledger.org/interledger.pdf